quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

JUSTIÇA DÁ PRAZO DE 3 MESES PARA UNIÃO REINTEGRAR PARENTES GUARANI-KAIOWÁ À TERRA INDÍGENA TEKOHÁ APIKA'Y, EM DOURADOS/MS






São 30 hectares de terra para o necessário assentamento de inúmeras Famílias de PARENTES, da Nação GUARANI-KAIOWÁ, que resiste há 12 anos às margens da BR-463, que passa pela Terra Indígena TEKOHÁ APIKA'Y, no Curral do Arame, em Dourados, distante 214 quilômetros da Capital, Campo Grande. A decisão foi prolatada pelo Douto Juízo da 1ª Vara da Justiça Federal da 3ª região, que fundamentou sua decisão nos termos do artigo 231, da CF/88, que reconhece aos INDÍGENAS sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. 

Segundo o MPF/reg/Ms, um estudo antropológico apontou que os PARENTES foram expulsos de suas terras tradicionais, devido à expansão da pecuária e agricultura, cuja área reivindicada está regida por um Termo de Ajustamento de Conduta - TAC, assinado em 12 de novembro 2007 pelo MPF/3ª região e pela Fundação Nacional do Índio - Funai, só sendo possível agora, após a morte dos "proprietários".  

Depois de expulsos de suas terras, os PARENTES Guarani-Kaiowá vivem sem nenhuma instalação sanitária e acesso à energia elétrica, e utilizam água imprópria para o consumo humano, que coletam em um riacho da região, contaminado por agrotóxicos de lavouras do entorno. Esta situação de vulnerabilidade, pelas condições de vida degradantes, já dura há mais de 12 anosvitimando crianças, adolescentes e outros a atropelamentos, além do que, os barracos já sofreram com inúmeros incêndios, expondo-os a risco iminente de extinção de sua Raça. Obrigando parte dos PARENTES a trabalhar nas fazendas da região, como mão de obra análoga a de escravo. 

MPF/3ªreg/MS sustenta que, mesmo passando por dificuldades e enfrentando a criminosa violência impetrada pelos fazendeiros, os PARENTES resistem motivados pela profunda ligação material e espiritual com a terra de seus antepassados, ao longo desses anos todos. Muito embora, tenham sido obrigados a fugir após a morte de sua liderança, Hilário Cário de Souza, em 1999, atropelado por funcionário da fazenda que ocupava.   

        A Ação, sob nº 0001297-68.2014.403.6002, foi ajuizada pelo MPF/3ªreg/MS. O não cumprimento da sentença proferida, sujeitará o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a ser acionado judicialmente, podendo ser processado por crime de responsabilidade, conforme assevera o Decisum: “Determino desde já a expedição de ofício ao Procurador Geral da República para a apuração de  crime de responsabilidade”.   




segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

JUSTIÇA DETERMINA PERÍCIA SOBRE IMPACTOS AMBIENTAIS POR AGROTÓXICOS EM TERRA INDÍGENA NO PARÁ





A Justiça Federal determinou realização de perícia científica em área de cultivo de dendê, na Terra Indígena Tembé, no município de Tomé-Açu, no nordeste do Pará. A decisão se fundamentou em indícios apontados pelo Ministério Público Federal - MPF/PRR 1ª Região, no Pará, que revelou o uso de agrotóxicos, pela empresa BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia, está provocando sérios impactos no meio ambiente amazônico, vitimando, principalmente, a saúde de inúmeras famílias indígenas, da Nação Tradicional Tembé.

                        Portanto, foi determinado, liminarmente, pelo juiz federal da 1ª Região, Antônio Carlos Almeida Campelo, que a perícia sobre o uso de agrotóxicos pela empresa BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia seja executada pelo Instituto Evandro Chagas – IEC, a fim de averiguar a dimensão dos impactos da cultura do dendê no solo, na flora, na fauna, no ar e nos recursos hídricos da região.

                        A decisão prolatada, também, determinou a investigação sobre a presença de agrotóxicos utilizados na cultura do dendê, e se esses produtos estariam causando problemas à saúde dos indígenas, providenciando, ainda, a realização de exames clínicos de pessoas da nação Tembé da Terra Indígena – TI, Turé-Mariquitá.

                        Desde 2012, que os Tembé, da Turé-Mariquitá, vêm combatendo as atividades da BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia. E, de acordo com informações enviadas pelo MPF/PRR 1ª Região à Justiça, os relatos dos indígenas denunciam a contaminação dos recursos naturais, provocando a morte de animais, peixes, além do surgimento de inúmeras doenças entre os seus.

                        As lideranças indígenas, dos PARENTES TEMBÉ, procuraram a diretoria da BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia, que se recusou a prestar qualquer reparação, escusando-se de sua obrigação pelo dano ambiental causado, sustentando não ter nada a ver com os danos ocorridos. Muito embora, os PARENTES TEMBÉ relatem haver peixes e animais da floresta mortos envenenados.

                        A contaminação por agrotóxico, em plantações de dendê, nos municípios de São Domingos do Capim, Concórdia do Pará, Bujaru e Açará, vizinhos de Tomé-Açú, foi comprovada pelo Instituto Evandro Chagas, conforme relatório pericial apresentado, que revelou que essas propriedades eram destinadas a plantações de dendê para beneficiamento pela BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia e outras empresas. O relatório pericial, apesar de não tratar especificamente do município de Tomé-Açu, é corroborado por inúmeros relatos dos PARENTES da Nação TEMBÉ.

Processo nº 0033930-90.2014.4.01.3900 – 5ª Vara Federal em Belém


COMIDO VIVO

                                 


                                            Como a M’bôia come suas presas?! Bom..., ela não tem veneno, por isso depende da força muscular de seu flexível corpo para asfixiar sua refeição. Geralmente, ela primeiramente morde e, então, enrola-se em torno de sua vítima, apertando-a e impedindo-a de respirar, matando por sufocamento, e engolindo-a, por fim.


                        Também acontece de engolir sua presa lenta e totalmente viva, mexendo-se inteiramente o tempo todo. Como acontece quando engole um Jacaré. A M’bôia consegue isso porque os ossos de sua mandíbula possuem ligamentos flexíveis, permitindo que abra bem sua boca. Pois possui mandíbulas incrivelmente expansíveis, possibilitando-lhe capturar animais de tamanho muito maior e engoli-los inteiramente vivos.
                       
                        Isso é possível porque a mandíbula superior da M’bôia está ligada à sua caixa craniana através de músculos, ligamentos e tendões, que lhe permitem mobilidade de frente para trás e de um lado para o outro, lingando-se à mandíbula inferior pelo osso quadrado, que funciona como uma dobradiça dupla, de modo que esta pode se deslocar, permitindo que sua boca abra em até 150º (graus). Além disso, os ossos que formam os lados de suas mandíbulas não estão fundidos na frente, mas ligados pelo tecido muscular, permitindo que se separem e se movam independentemente uns dos outros.

                              Assim, a M’bôia abre a boca e começa a "andar" com sua mandíbula inferior em direção à presa, ao mesmo tempo em que os dentes curvados para trás seguram-na, ou seja, um lado da mandíbula puxa para dentro enquanto o outro se move para frente, a fim de dar a próxima mordida, molhando completamente a presa com saliva, tracionando-a para dentro do esôfago. A partir daí, usa os músculos de seu corpo para simultaneamente esmagar sua comida e empurrá-la mais para dentro do trato digestório, onde é digerida, depois de determinado tempo, e os nutrientes, resultantes, absorvidos.

                        Enfim, toda essa flexibilidade e elasticidade mandibular são incrivelmente razoáveis, considerando, sobretudo, quando a M’bôia encontra uma presa muito maior do que a sua própria cabeça e que possui muita força, resistência e muita mobilidade, como é o caso do Jacaré, que ainda pode viver se debatendo, resistindo durante dias dentro de sua barriga!







domingo, 20 de abril de 2014

O CANTO DO UIRAPURU




Há muito, muito tempo, desde as primeiras canções, quando Sahú-Watô, o Grande Espírito da floresta, se movia suavemente sobre as mansas águas dos Igarapés, ouviu-se o choro de uma criança, que parecia o canto de um pássaro e..., naquele momento..., fez-se um silêncio em toda a floresta!

Assim, nascia um Curumim, que por ter o choro parecido com o canto dos pássaros foi chamado de Wirapu Ru, que significa pássaro que não é pássaro. E ele crescia em graça diante de Sahú-Watô e dos homens, porquanto, desde o primeiro instante de sua vida, foi enriquecido com toda a energia do poder dos elementares, pois nascera no momento da passagem de Sahú-Watô, e, assim, com o passar dos anos ia se manifestando mais e mais a sua elevada influência espiritual.

Wirapu Ru ia se tornando sempre cada vez mais querido, dando sempre mais a conhecer as belas qualidades que o faziam tão amável, pois com alegria obedecia aos ensinamentos mais tradicionais. Trabalhava sempre entusiasmado! Com modéstia se alimentava! Com moderação falava! Com doçura e afabilidade conversava com todos! Com coragem e bravura se destacava! Cada ação, cada palavra, cada movimento de Wirapu Ru abrasava e aquecia o coração de todos que o viam e em particular de duas Cunhantãs, que eram amigas inseparáveis. Uma se chamava Capotira, que significa flor do mato, e a outra Ibotira, que significa flor pequena.

Um dia..., foi decidido que uma Grande Festa para a Grande Matriarca, a Tuxaua da Tribo, seria realizada na próxima lua cheia. Capotira e Ibotira ficaram durante o dia inteiro se preparando com suas pinturas tradicionais para a Grande Festa, que aconteceria naquela noite de luar. Ambas já estavam muito impressionadas com Wirapu Ru, sem perceber que já estavam totalmente apaixonadas. Contudo, amavam em segredo, pois falavam da paixão que sentiam sem dizer, uma à outra, o nome do guerreiro por quem nutriam tão forte sentimento.

E a Grande Festa teve início e, com a aproximação de Wirapu Ru, sob a luz do luar, ambas as Cunhãs descobriram que estavam apaixonadas pela mesma pessoa. No entanto, a amizade entre elas era tão grande que resolveram superar o ciúme, o medo e decidiram que ele é quem escolheria uma das duas.

Logo, toda a Aldeia começou a perceber o que acontecia com as Cunhãs, e o caso foi levado ao conhecimento da Tuxaua, a Grande Matriarca, que resolveu conversar com ambas, a fim de chegar a alguma solução.

         Wirapu Ru foi chamado para depor e afirmou estar surpreso com o declarado amor de ambas as Cunhãs, respondendo à Tuxaua que gostava das duas e não tinha como saber de quem gostava mais. A Tuxaua, então, decidiu: “Aquela que acertar, em pleno voo, o pássaro que eu escolher, será a escolhida de Sahú-Watô”.

No dia seguinte, a Tuxaua escolheu um pássaro branco, que sobrevoava a Aldeia, e as Cunhãs dispararam suas flechas. O pássaro escolhido foi atingido e caiu no solo com uma flecha bem no peito. Como as flechas foram marcadas, ficou fácil saber quem seria a vencedora, que no caso foi Ibotira, que, por esse feito, foi quem se casou muito feliz com Wirapu Ru. Capotira, então, nesse momento, sentiu-se totalmente desamparada, não tinha agora sua melhor amiga, nem o seu grande amor. Muito infeliz, foi-se para a floresta chorar.

Contudo, mesmo estando casado com Ibotira, Wirapu Ru descobriu-se apaixonado por Capotira. Pois o sofrimento da Cunhã foi tamanho, que Wirapu Ru ficou tão sensibilizado e encantado pela mesma energia que resolveu dar margens àquela paixão, encontrando-se às escondidas com sua amada, floresta adentro. No entanto, ambos não podiam viver esse amor, pois poderiam ser mortos se alguém da tribo os descobrisse.

Assim, por se tratar de um amor proibido, Wirapu Ru não poderia se aproximar de Capotira durante as situações mais comuns e, por isso, caiu em profundo sofrimento, amanhecendo muito doente, com uma febre muito forte. E não havia Xamã no mundo que descobrisse que mal olhado seria esse, pois Wirapu Ru estava doente de paixão. Não aguentando mais tanto sofrimento, suspirou, entregando-se a Sahú-Watô, fazendo prematuramente a passagem para o Noçokém.

Sahú-Watô, muito compadecido com a passagem prematura de Wirapu Ru, resolveu transformá-lo num pássaro, dando-lhe um encantador e melodioso canto, e disse: “De agora em diante seu canto vai espantar a sua tristeza e a do mundo inteiro. Seu canto será tão belo que todos os pássaros se calarão para ouvi-lo cantar, passando a ser um símbolo de felicidade”.

Assim, quando o Wirapu Ru canta para a sua amada, com seu canto suave e melodioso por cerca de quinze minutos por ano – apenas -, tem esperança de que um dia Capotira ouça o seu canto e saiba que ele continua a amá-la tanto quanto sempre amou. E é por isso que toda a floresta e todos os pássaros ficam em silêncio ante a seu suave e reconfortante canto, rendendo-lhe homenagem.

E, também, é por isso que Wirapu Ru é considerado um pássaro que sempre traz boas energias, por ser um raríssimo e encantado pássaro. Quem o encontra e ouve seu canto pode fazer um pedido que se tornará realidade. Quem obtiver uma pena sua, terá sorte nos negócios e com as mulheres. A mulher que conseguir um pedaço do seu ninho terá a pessoa que ama apaixonada e fiel pelo resto da vida. Por tudo isso e muito mais, quem ouvir o seu melodioso, suave e inconfundível canto deverá fazer um pedido, que certamente será realizado.


 



segunda-feira, 10 de março de 2014

O ESPÍRITO GUARDIÃO DA FLORESTA




...naquela noite chovia muito! Mamãe papagaio estava em seu ninho, cuidando dos seus ovinhos, pois estava próxima a chegada dos seus filhotinhos e, por isso, ela estava muito ansiosa e contente.
De repente, a chuva cessa e os ovinhos começaram a se partir, surgindo lindos papagaiozinhos. Mamãe papagaio acariciava seus filhotinhos toda satisfeita, quando percebeu que um deles era... um pouco estranho, e... destoava dos demais. Ele era todo azul e tinha o bico branco, diferente dos seus irmãos e dos papagaios, que são em sua maioria de cor verde e com o bico de cor escura. Mas..., estava contente mesmo assim, e cuidava de todos com o mesmo carinho. E, assim, o tempo foi passando...!
Todos os passarinhos da floresta zombavam de mamãe papagaio, porque ela tinha um filhotinho esquisito. Ela, por sua vez, não se importava porque amava muito a todos os seus filhotinhos, sem distinção. Aquele papagaio diferente era conhecido por todos como pássaro estranho. Por isso, ninguém queria brincar com ele, nem seus próprios irmãos, porque ele era diferente de todos. E, por conta disso, ele se entristecia e se perguntava:
- Por que ninguém gosta de mim?!
Mamãe papagaio, vendo seu filho amado triste e chateado, aproximava-se e lhe fazia muito carinho. Ele, então, sentindo toda aquela maravilhosa sensação do carinho de mãe, logo se esquecia de todos os maus tratos sofridos e ficava todo contente.
Certo dia, quando estava perto do grande rio, percebeu que tinha algumas formiguinhas trabalhando, carregando folhinhas. Então, ele pensou:
- Eu acho que vou ajudá-las, vai ser divertido e vou fazer novas amizades!
Pegou, então, uma folhinha com seu biquinho branco e a colocou na entrada do formigueiro. Vendo aquele passarinho estranho perto da sua morada, um monte de formigas se aproximou. Uma mais afoita disse:
- Que pássaro esquisito, olha lá...! Acho que ele quer tampar o formigueiro para morrermos sufocadas. É isso! Ele quer acabar com a gente! Vamos companheiras, ao ataque!
E correram todas em sua direção. Todas gritavam em um só coro:
- Fora daqui pássaro malvado!
O papagaio azul voou rapidamente e pousou numa grande árvore. Sem entender o que se passou naquela hora, ficou pensativo:
- Por que elas ficaram tão furiosas comigo e queriam me machucar?! Eu não fiz nada, só desejava ajudar...!
       Assim, ficou parado ali um bom tempo, tentando chegar, em vão, a alguma conclusão.
Passaram-se alguns dias e ele, sempre sozinho, brincava na copa das árvores da floresta, quando percebeu que uma pequena lagarta andava distraída em um galho próximo.
- Puxa! Como ela é bonitinha, será que essa lagarta linda poderia ser minha amiguinha? - Pensou.
Foi quando percebeu que ela estava em perigo. O galho em que ela estava era seco e parecia que ia se partir logo, logo e a lagarta certamente cairia no chão. Rapidamente voou, ficou embaixo do galho, sustentando todo o peso com suas asas. E assim que a lagarta conseguiu atravessar, ouviu-se um barulho de galho se quebrando. Dona Lagarta levou o maior susto! E vendo o papagaio azul por perto, começou a gritar:
- Você tentou me jogar no chão! Fora daqui, vai embora...!
E o nosso amiguinho voou novamente para bem longe. Pousou em uma pedra perto do grande rio e continuava pensando:
- Por que todos me mandam embora?! Por que não gostam de mim?!
Olhou para o rio e percebeu que uma Joaninha estava quase se afogando. Ela tentava desesperadamente subir em um tronco que estava boiando, mas tudo em vão. Sem demora, o papagaio azul arremessou uma pedra, que estava ao seu lado, chegando esta a cair próximo da pequena Joaninha, criando uma ondulação na água, arremessando-a longe, até chegar à terra firme.
Muito feliz por haver salvado a pequena Joaninha, o papagaio azul voou em sua direção e lhe perguntou:
- Nossa! A senhora está bem, Dona Joaninha?!
Ainda meio atordoada do susto, Dona Joaninha, muito irritada lhe responde:
- Você tentou me matar, atirando aquela pedra em mim, seu papagaio esquisito! Os habitantes da floresta correm muito perigo com você à solta por aí! Vou correndo reclamar de você ao Conselho Maior da floresta e vou relatar tudo o que se passou, a fim de que sérias providências legais sejam tomadas...!
O Conselho Maior, que era representado pelos habitantes mais importantes, idôneos e de conduta ilibada, fora convocado e o papagaio azul intimado a comparecer em determinada data e lugar, que foram aprazados.
        E devido à grande repercussão jurídica do caso, todos os habitantes da floresta se fizeram presentes para assistir ao julgamento do papagaio azul.
O representante do Ministério Público das Formigas pediu a palavra e, utilizando uma eloquente retórica, acusou formalmente o papagaio azul de ter tentado entupir o formigueiro e só não o fez por motivos alheios à sua vontade. A lagarta depôs como testemunha de acusação e afirmou, veementemente, que o papagaio azul havia tentado jogá-la no chão. Dona Joaninha, também, foi convocada como representante daqueles que se sentiam prejudicados e incomodados, e apresentou uma lista de acusações contra o papagaio azul.
O papagaio azul apenas ouvia a tudo, muito sentido com toda a repercussão do caso e profundamente entristecido com tudo que estava acontecendo, pois jamais gostaria de se tornar um peso para os demais. Sentia, mais ainda, por estar sendo considerado o motivo de pesar de muitos, por isso, ouvia a tudo sem dizer nada.
Até que toda a assembleia começou a gritar:
- Fora daqui! - Diziam uns.
- Que ele seja expulso da floresta! - Gritavam outros.
Depois de considerar por alguns minutos, o Conselho Maior da floresta prolatou sua irrecorrível e soberana decisão, proferida de forma unânime - o papagaio azul foi considerado culpado pelos crimes a ele imputados. E sua punição foi a expulsão da floresta, sendo obrigado a viver sozinho na grande rocha, que fica fora da floresta.
O papagaio azul totalmente submisso foi, então, em direção a sua nova casa, na grande rocha, fora da floresta. Ele estava sozinho agora e não podia mais entrar na floresta para ver os seus. Por isso, considerou:
- Puxa! Como vou fazer para me alimentar? Pensou por algum tempo e concluiu:
- Ah! Sim! Tenho de arranjar um jeito de entrar na floresta e sair de forma que ninguém nunca me veja.
O tempo foi passando e ele sempre voltava à floresta, mas nunca deixava que ninguém percebesse sua presença. Quase sempre encontrava alguns animaizinhos em apuros e os ajudava. Todos os habitantes da floresta percebiam que algo estranho acontecia. Algumas vezes, apareciam frutos em lugares onde faltavam alimentos, filhotinhos que caíam das árvores e não se machucavam...!
Como muita coisa boa acontecia com certa frequência, criou-se, entre os moradores da floresta, a crença de que existia um Espírito Guardião que protegia a todos e que Ele somente estava a realizar seus prodígios, porque o papagaio azul não estava mais entre os moradores da floresta. Todos acreditavam na bondade do Espírito Guardião da floresta e muitos passaram a ajudar aqueles que tinham dificuldades em seu nome. Todos estavam muito felizes e a Paz reinou por longos anos.
Certo dia..., o papagaio azul, já bem velhinho, mas com o semblante confiante e sempre otimista, saiu da caverna árida em que morava na grande rocha, fora da floresta e longe dos seus. E pousou nas margens do grande rio. Ficou ali algum tempo, tendo todos os motivos do mundo para se entristecer e reclamar, mas..., cantava, alegremente, ao Grande Espírito da floresta! Agradecendo, profundamente, por mais um dia...! Quando ouviu uma voz suave lhe chamando:
- Papagaio azul...!
Ao ouvir aquela voz, o papagaio azul tomou o maior susto, porque ninguém da floresta poderia ver que ele estava ali. Tentou rapidamente se esconder quando ouviu novamente aquela mesma voz, agora, ainda mais suave, dizendo:
- Não tenha medo, papagaio azul...!
Naquele instante, uma grande luz o envolveu totalmente.
- Sou o Grande Espírito da floresta, Aquele que criou toda a floresta e que sabe todas as coisas. Você está cansado, papagaio azul. Chegou a hora do merecido descanso. É hora de voltar para casa e para os seus, desfrutar das alegrias que conquistou.
- Mas..., eles me expulsaram de lá, de sorte que não posso mais voltar!
O Grande Espírito, em tom solene, ordenou-lhe:
- Olhe para o rio, papagaio azul.
O papagaio azul olhou para a água e foi a primeira vez em toda a sua vida que viu o seu próprio reflexo. Muito espantado, exclamou:
- Nooossa! Eu sou da cor do céu!
- Certamente! Compreende agora?! Você é um pedacinho do céu que eu permiti que descesse até a terra para ensinar a todos a amar indistintamente sem esperar receber nada de volta, fazendo com a mão direita, de forma que a esquerda de nada ficasse sabendo.
Neste momento, o papagaio azul começou a chorar muito. E suplicou:
- Oh! Por favor! Reconheço que falhei em minha missão, pois ninguém se lembra de mim, senão como um malfeitor!
- Sim, é verdade. Do papagaio azul ninguém mais se recordará, entretanto, do Espírito Guardião da floresta, os séculos passarão e ele jamais será esquecido. Ele será sempre lembrado, não por sua forma e beleza, mas por suas atitudes de bondade.
- Mas ninguém sabe que fui eu! Exclamou surpreso o papagaio azul.
- Eu o sei, e isso é o bastante - Falou o Grande Espírito da floresta. Você fez o bem a muitos sem esperar nada em troca, agora venha para os meus braços.
E o papagaio azul, não cabendo em si de tanta alegria, voou em direção ao céu, desaparecendo no horizonte.
Lá embaixo, na floresta, todos se sentiam felizes e amparados porque acreditavam que existia um Bom Espírito que cuidava deles. O respeito e admiração ao Espírito Guardião da floresta, desde então, é passado de geração para geração.




sexta-feira, 7 de março de 2014

O QUANTO DEIXEI DE VER JACI...?!




Certa vez..., em uma noite estrelada de luar, um homem remava suavemente sua canoa pelos igarapés próximos de sua aldeia.
Na popa de sua canoa, ele carrega o que para ele é o seu maior tesouro - seu filhinho de apenas dois anos de idade.
Enquanto continua remando, ele observa que seu filho está com o olhar fixado no alto, longe, parecendo totalmente absorvido pelo maravilhoso céu estrelado de luar.
Uma luz de um suave azul do luar ilumina o rosto do curumim, proporcionando uma beleza sem igual para o pai, encantado pela pureza angelical de sua criança.
Então, com aquela voz tenra, pequena e trêmula da descoberta das primeiras palavras, o curumim aponta para cima e fala:
- J..a..c.i !!! - que significa Lua.
Sim, isso mesmo! - diz o pai todo animado e muito admirado. É Jaci! Como Jaci é linda, não é, meu filho?!
O curumim nada responde, e continua encantado, observando o brilho natural da luz do luar, pois as crianças da aldeia intuitivamente sabem que a beleza da natureza precisa ser apenas contemplada, e que qualquer palavra é pequena, pobre e insuficiente demais para descrevê-la.
A partir de então, o pai passa a olhar para cima também, respira fundo e consegue observar a maravilha que é uma noite de luar a cobrir todas as árvores, rios, lagos, furos e igarapés, em toda a floresta!
Então, pensa consigo mesmo:
“Nossa! O quanto deixei de ver Jaci...?!”
Lembrou-se, então, de que fazia muito tempo, desde a última vez que pôde parar em si e contemplar profundamente o fulgurante e encantador brilho lunar. E perguntou pra si:
- Será mesmo que me esqueci de admirar Jaci?! Contudo, sinto que ela certamente não se esqueceu de mim, pois há pouco conversava com meu filhinho...!
Os dias agitados, os muitos afazeres, as preocupações, tudo isso pode nos fazer perder o contato com a natureza e com as coisas simples da vida.
Começa o ano e, quando menos percebemos, já estamos pela metade e... nesse tempo todo - pois é muito tempo – esquecemo-nos de admirar o céu, as nuvens, um pôr do sol, ou simplesmente apreciar o canto dos pássaros...!
Falta-nos tempo para aproveitar as oportunidades! – é o que alegamos. E quem é capaz de criar tais oportunidades? Apenas nós mesmos, ninguém mais!
O contato com a natureza nos renova as forças e nos proporciona momentos de reflexão, de pensamentos mais leves, sem o peso angustiante da preocupação. Tudo isso faz bem ao espírito e ao corpo. Precisamos recarregar nossas energias, constantemente, e o Grande Espírito Criador nos oportuniza a cada momento diversas fontes naturalmente inesgotáveis de tais recursos.
Não podemos nos deixar ser simplesmente consumidos, pelas preocupações do dia a dia.
A vida é muito mais que acordar, trabalhar, alimentar-se, usufruir de pequenos prazeres, dormir...!
Devemos aproveitar a nossa passagem terrena para aprender com a observação dos acontecimentos naturais, a fim de retirarmos daí as mais sublimes lições de vida necessárias para a continuidade de nossa evolução espiritual, sob pena de termos uma vida afogada em mil afazeres - sem tempo para nada – mas interiormente, vazios, tristes e depressivos.
Assim, não devemos deixar de ver Jaci, nem deixar de observar a natureza, de notar as estrelas, de nos maravilharmos com elas e, principalmente, de escutar o que elas sempre têm a nos dizer.
Que possamos olhar para Jaci e nos deixarmos seduzir pela beleza natural e encantadora de uma noite de LUAR!!!