domingo, 19 de abril de 2015




“Pisa ligeiro!
 Pisa ligeiro!
 Quem não pode com formiga,
 Não assanha o formigueiro!!!”.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

O KUANDÚ E A BORBOLETA






                                         Há muito, muito tempo, desde as primeiras canções, conta-se sobre a amizade entre uma linda, leve e colorida borboleta e um resmungão, agressivo e sempre mal humorado Kuandú, o Porco Espinho. Sim, não tinham praticamente nada em comum, mas em certo momento de suas vidas se aproximaram e criaram um forte laço de amizade.

                        A borboleta era livre, voava por todos os cantos da floresta, enfeitando a paisagem. Já o Kuandú, tinha grandes limitações, não tinha amizade com ninguém, pois sempre que alguém se aproximava dele, acabava de alguma forma se machucando. Por isso, vivia sempre sozinho, não tendo nenhuma amizade. Contudo, a borboleta, muito embora tivesse a amizade de muitos outros animais e a liberdade de voar por toda a floresta, gostava de fazer companhia ao Kuandú, agradava-lhe ficar ao seu lado e não era por dó, mas por companheirismo, afeição, dedicação e carinho. Assim, todos os dias, ia visitá-lo e lá chegando levava sempre uma espetada, depois, então, um sorriso.

                        Entre uma espetada e outra, a borboleta optava por esquecer a dor e guardar dentro do seu coração, o sorriso e os bons momentos. Sempre o Kuandú reclamava de sua sorte e que nada acontecia de bom o suficiente para tornar a sua vida feliz, por isso cobrava da borboleta uma solução para todos os seus problemas. Ela, sempre muito otimista e carinhosa, tentava de todas as formas ajudar-lhe, mas isso nem sempre era possível por ser ela uma criaturinha tão frágil. Os anos se passaram e numa manhã de verão a borboleta não apareceu mais para visitar o seu companheiro. 

                        O Kuandú nem percebeu, preocupado que ainda estava em procurar alguma coisa para comer. E vieram outras manhãs e mais outras e outras, até que chegou o inverno e o Kuandú sentiu-se só e finalmente percebeu a ausência da borboleta. Por isso, resolveu sair do seu cantinho, onde costumava ficar próximo a um igarapé, e sair pela floresta adentro a procurar por sua alada, colorida e sempre animada, amiguinha. Caminhou por toda a floresta a observar cada cantinho onde ela poderia ter se escondido, mas não a encontrou. Cansado, deitou-se embaixo de uma árvore. 

                        Logo em seguida, uma Anta se aproximou e lhe perguntou: 

                        - Quem é você?! E o que faz por aqui?! Eu nunca lhe vi por estas bandas! 

                        - Eu sou o Kuandú, que mora próximo ao igarapé e estou a procura de uma amiga minha, a borboleta que sumiu!

                        - Ah! Então é você o famoso Kuandú?! 

                        - Famoso, eu?! Retrucou admirado. 

                        - É que eu tive uma grande amiga que me disse que também era sua amiga e falava muito bem de você. Mas afinal, qual borboleta você está procurando?! Pergunta a Anta. 

                        - É uma borboleta colorida, alegre, que sobrevoa a floresta todos os dias, visitando todos os animais amigos e sempre disposta a prestar algum auxílio!

             - Nossa! Mas era justamente dela que eu estava falando! Exclamou com pesar a Anta - Você ainda não sabe?! Ela morreu e já faz algum tempo! 

                   - Mo...morreu?! Mas..., como assim?! Como foi isso?! Perguntou desesperado o pobre Kuandú. 

                        - Dizem que ela conhecia, aqui na floresta, um Kuandú, assim como você e todos os dias quando ela ia visitá-lo, saía machucada - Respondeu a Anta -, ela sempre voltava com marcas horríveis e todos lhe perguntavam quem poderia ter-lhe feito aquilo, mas ela jamais contou a ninguém. Insistíamos muito para saber quem era o autor daquela malvadeza e ela respondia que só ia falar das visitas boas que tinha feito naquela manhã e era aí que ela falava com a maior alegria de você. 

                        Nesse momento, o Kuandú já estava derramando muitas lágrimas de tristeza e de arrependimento. 

                        - Não chore, meu amigo, sei o quanto você deve estar sofrendo! Ela sempre me disse que você era um grande amigo, mas entenda, foram tantos os machucados, que ela recebeu, que acabou perdendo as suas asinhas, vindo a adoecer muito, até não conseguir resistir mais e morreu! 

                        - Mas..., por que ela não mandou me chamar nos seus últimos dias?! Pergunta no meio de soluços, o Kuandú. 

                        - Não, todos os animais da floresta quiseram lhe avisar, mas ela os conteve e disse o seguinte: "Oh! Por favor! Não perturbem meu amiguinho com coisas pequenas, ele tem um grande problema, que nunca pude ajudá-lo a resolver! Carrega em seu corpo uma pelagem feita de espinhos, então pode ser difícil demais pra ele vir até aqui. Contudo, se algum dia ele aqui vier, queiram lhe entregar essa carta". 

                        O Kuandú pegou a carta e começou a lê-la, que assim dizia: 

                        "Meu amado amiguinho, não culpe a ninguém por seus infortúnios, afinal são as provações que nos tornam mais fortes. Espero que você possa aceitar as coisas como elas são... Sem pensar que tudo conspira contra você...! Porque parte de nós é entendimento... e a outra parte é aprendizado...!  

                        Que você possa ter forças para vencer todos os seus medos! Que no final possa alcançar todos os seus objetivos! Que tudo aquilo que você vê e escuta possa lhe trazer conhecimento! Que sua vida possa ser longa e feliz! Pois parte de nós é o que vivemos, a outra parte é o que esperamos! Que durante a sua vida você possa construir sentimentos verdadeiramente bons! Que, enfim, você possa aceitar que só quem soube da sombra, pode saber da luz! 

                        Para ser feliz não existe poção mágica! É preciso tão somente ter a alma limpa e desprovida de mágoas e rancores! Quanto mais tempo ficarmos remoendo as dores, mais tempo levaremos para cicatrizar as feridas! 

                        Estamos nesta vida de passagem! Saiba que cada um é livre para cumprir a sua missão! Por isso devemos agradecer sempre ao Grande Espírito da floresta, pela sua compaixão, pela sua graça, pela sua bondade, que estão sempre presentes, sustentando-nos nos momentos mais difíceis." 


 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A FOGUEIRA ACESA



                        O maior desejo de Ximbuca era ter alguns dias a sós com o grande Pajé. Acreditava que desta forma seria mais fácil aprender os seus ensinamentos. O Pajé, sabendo dos desejos de Ximbuca, resolveu lhe fazer uma surpresa. Assim, foi que o convidou para passarem alguns dias na floresta adentro.                 
                        Ximbuca deu pulos de alegria e foi correndo arrumar suas coisas para ir com o Pajé para a floresta adentro. Assim, foram caminhando cada vez mais para dentro da floresta até chegarem ao lugar previsto pelo Pajé, que era  formado por mata bem cerrada, sendo necessário caminharem até o pé de uma grande rocha, conhecida por todos como Pedra da Lua. Depois da escalada, o Pajé determinou que Ximbuca preparasse o lugar, onde iriam dormir naquela noite, e que fosse procurar por lenha, pois teriam de fazer uma fogueira, pois logo anoiteceria. Por isso, Ximbuca, com grande devoção, cuidou para que tudo fosse preparado de acordo com a vontade do Pajé, e saiu saltitante em busca da lenha para o preparo da fogueira ao luar.
                        Mas qual foi sua surpresa!? Ximbuca afoito em seus pensamentos, não conseguindo relaxar, acabou tendo muita dificuldade para encontrar lenha que servisse para o preparo de uma boa fogueira, como a que a ocasião sugeria. Depois de passadas algumas horas, Ximbuca voltou trazendo a lenha em seus braços. Estava cansado e muito irritado, mas voltou a sorrir quando o Pajé veio ao seu encontro, felicitando-o pelo esforço, e vibrando positivamente em seu favor, desejando que Ximbuca, na dor encontrada, pudesse evoluir espiritualmente. Pois o pajé sabia o quanto era difícil encontrar lenha boa naquela parte da floresta.
                                    Logo ao chegar, Ximbuca deitou-se para descansar, mas o Pajé imediatamente interveio:
                        - Ximbuca está anoitecendo e nós não temos fogo! Trate de andar rápido e faça uma boa fogueira para que possamos manter os animais afastados!
                        Nossa! Ximbuca não acreditou no que acabara de ouvir, mas, imediatamente se pôs a fazer a fogueira. Quando o fogo estava já bem alto, o Pajé lhe agradeceu e novamente lhe destinou energias reconfortantes, pondo-se a sentar-se ao lado da fogueira. Ximbuca deu-se por satisfeito. Tudo estava na mais perfeita ordem e na mais suave harmonia. Iria finalmente poder ouvir os ensinamentos do Pajé e depois descansar.
                        Foi então que o Pajé lhe falou:
                        - Ximbuca, bravo guerreiro, vou recolher-me e ficarei a noite inteira envolvido com minhas rezas. Quero pedir-lhe uma coisa: não permita, sob hipótese alguma, que este fogo se apague. Amanhã, quando o sol raiar, este fogo deverá ainda estar aceso!
                        Ximbuca tentou perguntar ao Pajé o porquê de tal pedido, mas ele já se recolhera para fazer suas rezas, e Ximbuca sabia que não o poderia incomodar. Entediado, sentou-se ao lado da fogueira. Sabia que não poderia dormir e que o fogo deveria permanecer aceso. Colocava lenha de hora em hora para alimentar a fogueira, e de repente olhou para o céu viu que poderia chover, pois o tempo fechou, cobrindo os raios do luar. E agora?!
                        O tempo passava e o dia já estava quase amanhecendo e Ximbuca, a essa altura, estava furioso. Sentia tanta raiva que teve vontade de abandonar o Pajé ali mesmo. Contudo, teve que desarmar sua rede para poder cobrir a lenha e proteger a fogueira da chuva. Estava todo molhado, e não suportando mais tanto sofrimento se pôs a chorar!
                        Momento em que o Pajé apareceu e lhe disse:
                        - Ximbuca, se tens por propósito descobrir os segredos do poder dos elementares, procura primeiramente iluminar-te e servir ao Grande Espírito da floresta, estando sempre muito bem disposto a cuidar da tua chama interior! Portanto, não permitas que nenhum pensamento e nenhuma emoção - criados por tua própria mente -, contaminem a tua paz e a tua serenidade! Deves procurar formas e formas de manter tua chama acesa, não te entregando jamais aos pensamentos carregados de pessimismo e de desesperança! A confiança em teu propósito é o que te guiará e o que te fará manter sempre este fogo aceso! Sem esta chama, tu cairás na escuridão e o que poderás aprender quando nada podes ver?!

                        Agora já podemos voltar para a nossa aldeia. A nossa missão aqui já está cumprida!

       

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

JUSTIÇA DÁ PRAZO DE 3 MESES PARA UNIÃO REINTEGRAR PARENTES GUARANI-KAIOWÁ À TERRA INDÍGENA TEKOHÁ APIKA'Y, EM DOURADOS/MS






São 30 hectares de terra para o necessário assentamento de inúmeras Famílias de PARENTES, da Nação GUARANI-KAIOWÁ, que resiste há 12 anos às margens da BR-463, que passa pela Terra Indígena TEKOHÁ APIKA'Y, no Curral do Arame, em Dourados, distante 214 quilômetros da Capital, Campo Grande. A decisão foi prolatada pelo Douto Juízo da 1ª Vara da Justiça Federal da 3ª região, que fundamentou sua decisão nos termos do artigo 231, da CF/88, que reconhece aos INDÍGENAS sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. 

Segundo o MPF/reg/Ms, um estudo antropológico apontou que os PARENTES foram expulsos de suas terras tradicionais, devido à expansão da pecuária e agricultura, cuja área reivindicada está regida por um Termo de Ajustamento de Conduta - TAC, assinado em 12 de novembro 2007 pelo MPF/3ª região e pela Fundação Nacional do Índio - Funai, só sendo possível agora, após a morte dos "proprietários".  

Depois de expulsos de suas terras, os PARENTES Guarani-Kaiowá vivem sem nenhuma instalação sanitária e acesso à energia elétrica, e utilizam água imprópria para o consumo humano, que coletam em um riacho da região, contaminado por agrotóxicos de lavouras do entorno. Esta situação de vulnerabilidade, pelas condições de vida degradantes, já dura há mais de 12 anosvitimando crianças, adolescentes e outros a atropelamentos, além do que, os barracos já sofreram com inúmeros incêndios, expondo-os a risco iminente de extinção de sua Raça. Obrigando parte dos PARENTES a trabalhar nas fazendas da região, como mão de obra análoga a de escravo. 

MPF/3ªreg/MS sustenta que, mesmo passando por dificuldades e enfrentando a criminosa violência impetrada pelos fazendeiros, os PARENTES resistem motivados pela profunda ligação material e espiritual com a terra de seus antepassados, ao longo desses anos todos. Muito embora, tenham sido obrigados a fugir após a morte de sua liderança, Hilário Cário de Souza, em 1999, atropelado por funcionário da fazenda que ocupava.   

        A Ação, sob nº 0001297-68.2014.403.6002, foi ajuizada pelo MPF/3ªreg/MS. O não cumprimento da sentença proferida, sujeitará o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a ser acionado judicialmente, podendo ser processado por crime de responsabilidade, conforme assevera o Decisum: “Determino desde já a expedição de ofício ao Procurador Geral da República para a apuração de  crime de responsabilidade”.   




segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

JUSTIÇA DETERMINA PERÍCIA SOBRE IMPACTOS AMBIENTAIS POR AGROTÓXICOS EM TERRA INDÍGENA NO PARÁ





A Justiça Federal determinou realização de perícia científica em área de cultivo de dendê, na Terra Indígena Tembé, no município de Tomé-Açu, no nordeste do Pará. A decisão se fundamentou em indícios apontados pelo Ministério Público Federal - MPF/PRR 1ª Região, no Pará, que revelou o uso de agrotóxicos, pela empresa BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia, está provocando sérios impactos no meio ambiente amazônico, vitimando, principalmente, a saúde de inúmeras famílias indígenas, da Nação Tradicional Tembé.

                        Portanto, foi determinado, liminarmente, pelo juiz federal da 1ª Região, Antônio Carlos Almeida Campelo, que a perícia sobre o uso de agrotóxicos pela empresa BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia seja executada pelo Instituto Evandro Chagas – IEC, a fim de averiguar a dimensão dos impactos da cultura do dendê no solo, na flora, na fauna, no ar e nos recursos hídricos da região.

                        A decisão prolatada, também, determinou a investigação sobre a presença de agrotóxicos utilizados na cultura do dendê, e se esses produtos estariam causando problemas à saúde dos indígenas, providenciando, ainda, a realização de exames clínicos de pessoas da nação Tembé da Terra Indígena – TI, Turé-Mariquitá.

                        Desde 2012, que os Tembé, da Turé-Mariquitá, vêm combatendo as atividades da BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia. E, de acordo com informações enviadas pelo MPF/PRR 1ª Região à Justiça, os relatos dos indígenas denunciam a contaminação dos recursos naturais, provocando a morte de animais, peixes, além do surgimento de inúmeras doenças entre os seus.

                        As lideranças indígenas, dos PARENTES TEMBÉ, procuraram a diretoria da BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia, que se recusou a prestar qualquer reparação, escusando-se de sua obrigação pelo dano ambiental causado, sustentando não ter nada a ver com os danos ocorridos. Muito embora, os PARENTES TEMBÉ relatem haver peixes e animais da floresta mortos envenenados.

                        A contaminação por agrotóxico, em plantações de dendê, nos municípios de São Domingos do Capim, Concórdia do Pará, Bujaru e Açará, vizinhos de Tomé-Açú, foi comprovada pelo Instituto Evandro Chagas, conforme relatório pericial apresentado, que revelou que essas propriedades eram destinadas a plantações de dendê para beneficiamento pela BIOPALMA DA AMAZÔNIA S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO - em Óleos Vegetais da Amazônia e outras empresas. O relatório pericial, apesar de não tratar especificamente do município de Tomé-Açu, é corroborado por inúmeros relatos dos PARENTES da Nação TEMBÉ.

Processo nº 0033930-90.2014.4.01.3900 – 5ª Vara Federal em Belém


COMIDO VIVO

                                 


                                            Como a M’bôia come suas presas?! Bom..., ela não tem veneno, por isso depende da força muscular de seu flexível corpo para asfixiar sua refeição. Geralmente, ela primeiramente morde e, então, enrola-se em torno de sua vítima, apertando-a e impedindo-a de respirar, matando por sufocamento, e engolindo-a, por fim.


                        Também acontece de engolir sua presa lenta e totalmente viva, mexendo-se inteiramente o tempo todo. Como acontece quando engole um Jacaré. A M’bôia consegue isso porque os ossos de sua mandíbula possuem ligamentos flexíveis, permitindo que abra bem sua boca. Pois possui mandíbulas incrivelmente expansíveis, possibilitando-lhe capturar animais de tamanho muito maior e engoli-los inteiramente vivos.
                       
                        Isso é possível porque a mandíbula superior da M’bôia está ligada à sua caixa craniana através de músculos, ligamentos e tendões, que lhe permitem mobilidade de frente para trás e de um lado para o outro, lingando-se à mandíbula inferior pelo osso quadrado, que funciona como uma dobradiça dupla, de modo que esta pode se deslocar, permitindo que sua boca abra em até 150º (graus). Além disso, os ossos que formam os lados de suas mandíbulas não estão fundidos na frente, mas ligados pelo tecido muscular, permitindo que se separem e se movam independentemente uns dos outros.

                              Assim, a M’bôia abre a boca e começa a "andar" com sua mandíbula inferior em direção à presa, ao mesmo tempo em que os dentes curvados para trás seguram-na, ou seja, um lado da mandíbula puxa para dentro enquanto o outro se move para frente, a fim de dar a próxima mordida, molhando completamente a presa com saliva, tracionando-a para dentro do esôfago. A partir daí, usa os músculos de seu corpo para simultaneamente esmagar sua comida e empurrá-la mais para dentro do trato digestório, onde é digerida, depois de determinado tempo, e os nutrientes, resultantes, absorvidos.

                        Enfim, toda essa flexibilidade e elasticidade mandibular são incrivelmente razoáveis, considerando, sobretudo, quando a M’bôia encontra uma presa muito maior do que a sua própria cabeça e que possui muita força, resistência e muita mobilidade, como é o caso do Jacaré, que ainda pode viver se debatendo, resistindo durante dias dentro de sua barriga!







domingo, 20 de abril de 2014

O CANTO DO UIRAPURU




Há muito, muito tempo, desde as primeiras canções, quando Sahú-Watô, o Grande Espírito da floresta, se movia suavemente sobre as mansas águas dos Igarapés, ouviu-se o choro de uma criança, que parecia o canto de um pássaro e..., naquele momento..., fez-se um silêncio em toda a floresta!

Assim, nascia um Curumim, que por ter o choro parecido com o canto dos pássaros foi chamado de Wirapu Ru, que significa pássaro que não é pássaro. E ele crescia em graça diante de Sahú-Watô e dos homens, porquanto, desde o primeiro instante de sua vida, foi enriquecido com toda a energia do poder dos elementares, pois nascera no momento da passagem de Sahú-Watô, e, assim, com o passar dos anos ia se manifestando mais e mais a sua elevada influência espiritual.

Wirapu Ru ia se tornando sempre cada vez mais querido, dando sempre mais a conhecer as belas qualidades que o faziam tão amável, pois com alegria obedecia aos ensinamentos mais tradicionais. Trabalhava sempre entusiasmado! Com modéstia se alimentava! Com moderação falava! Com doçura e afabilidade conversava com todos! Com coragem e bravura se destacava! Cada ação, cada palavra, cada movimento de Wirapu Ru abrasava e aquecia o coração de todos que o viam e em particular de duas Cunhantãs, que eram amigas inseparáveis. Uma se chamava Capotira, que significa flor do mato, e a outra Ibotira, que significa flor pequena.

Um dia..., foi decidido que uma Grande Festa para a Grande Matriarca, a Tuxaua da Tribo, seria realizada na próxima lua cheia. Capotira e Ibotira ficaram durante o dia inteiro se preparando com suas pinturas tradicionais para a Grande Festa, que aconteceria naquela noite de luar. Ambas já estavam muito impressionadas com Wirapu Ru, sem perceber que já estavam totalmente apaixonadas. Contudo, amavam em segredo, pois falavam da paixão que sentiam sem dizer, uma à outra, o nome do guerreiro por quem nutriam tão forte sentimento.

E a Grande Festa teve início e, com a aproximação de Wirapu Ru, sob a luz do luar, ambas as Cunhãs descobriram que estavam apaixonadas pela mesma pessoa. No entanto, a amizade entre elas era tão grande que resolveram superar o ciúme, o medo e decidiram que ele é quem escolheria uma das duas.

Logo, toda a Aldeia começou a perceber o que acontecia com as Cunhãs, e o caso foi levado ao conhecimento da Tuxaua, a Grande Matriarca, que resolveu conversar com ambas, a fim de chegar a alguma solução.

         Wirapu Ru foi chamado para depor e afirmou estar surpreso com o declarado amor de ambas as Cunhãs, respondendo à Tuxaua que gostava das duas e não tinha como saber de quem gostava mais. A Tuxaua, então, decidiu: “Aquela que acertar, em pleno voo, o pássaro que eu escolher, será a escolhida de Sahú-Watô”.

No dia seguinte, a Tuxaua escolheu um pássaro branco, que sobrevoava a Aldeia, e as Cunhãs dispararam suas flechas. O pássaro escolhido foi atingido e caiu no solo com uma flecha bem no peito. Como as flechas foram marcadas, ficou fácil saber quem seria a vencedora, que no caso foi Ibotira, que, por esse feito, foi quem se casou muito feliz com Wirapu Ru. Capotira, então, nesse momento, sentiu-se totalmente desamparada, não tinha agora sua melhor amiga, nem o seu grande amor. Muito infeliz, foi-se para a floresta chorar.

Contudo, mesmo estando casado com Ibotira, Wirapu Ru descobriu-se apaixonado por Capotira. Pois o sofrimento da Cunhã foi tamanho, que Wirapu Ru ficou tão sensibilizado e encantado pela mesma energia que resolveu dar margens àquela paixão, encontrando-se às escondidas com sua amada, floresta adentro. No entanto, ambos não podiam viver esse amor, pois poderiam ser mortos se alguém da tribo os descobrisse.

Assim, por se tratar de um amor proibido, Wirapu Ru não poderia se aproximar de Capotira durante as situações mais comuns e, por isso, caiu em profundo sofrimento, amanhecendo muito doente, com uma febre muito forte. E não havia Xamã no mundo que descobrisse que mal olhado seria esse, pois Wirapu Ru estava doente de paixão. Não aguentando mais tanto sofrimento, suspirou, entregando-se a Sahú-Watô, fazendo prematuramente a passagem para o Noçokém.

Sahú-Watô, muito compadecido com a passagem prematura de Wirapu Ru, resolveu transformá-lo num pássaro, dando-lhe um encantador e melodioso canto, e disse: “De agora em diante seu canto vai espantar a sua tristeza e a do mundo inteiro. Seu canto será tão belo que todos os pássaros se calarão para ouvi-lo cantar, passando a ser um símbolo de felicidade”.

Assim, quando o Wirapu Ru canta para a sua amada, com seu canto suave e melodioso por cerca de quinze minutos por ano – apenas -, tem esperança de que um dia Capotira ouça o seu canto e saiba que ele continua a amá-la tanto quanto sempre amou. E é por isso que toda a floresta e todos os pássaros ficam em silêncio ante a seu suave e reconfortante canto, rendendo-lhe homenagem.

E, também, é por isso que Wirapu Ru é considerado um pássaro que sempre traz boas energias, por ser um raríssimo e encantado pássaro. Quem o encontra e ouve seu canto pode fazer um pedido que se tornará realidade. Quem obtiver uma pena sua, terá sorte nos negócios e com as mulheres. A mulher que conseguir um pedaço do seu ninho terá a pessoa que ama apaixonada e fiel pelo resto da vida. Por tudo isso e muito mais, quem ouvir o seu melodioso, suave e inconfundível canto deverá fazer um pedido, que certamente será realizado.